domingo, 21 de maio de 2017

A quarta Rainha

[26 de abril de 2017]

Dispor das palavras para descrições da realidade já é coisa falida. Não que eu espere, aqui, fazer grandiosidades tais como as dos autores que lemos e relemos e amamos e choramos sobre e com eles. Nem tampouco vou reinventar a roda, de forma a criar qualquer teoria da produção ficcional - aos montes se veem pessoas dedicadas a isso. De pequenas conversas, convivências com a potência vital de um embrião (que ainda não se sabe o destino que terá - isso se qualquer destino é passível de conhecimento), surgem necessidades aristotélicas. Talvez fantasiosas demais para qualquer possibilidade de verossimilhança, mas tudo cabe na imensa plasticidade da imaginação humana.

Caminhar pensando à exaustão. Pensar, pensar, pensar à exaustão. Colocar-me em complicações existenciais, de forma voluntária ou só psicanaliticamente explicável - eu o faço à exaustão. A exaustão é o grande signo desses últimos respiros de uma adolescência tardia. I honor the godesses of foreseeing - por não nos permitirem figurar exatamente o que o destino nos reserva, esse dom e maldição nos foi gentilmente subtraído. A elas eu agradeço pelo imprevisto, pelo arranjo, pelas providências, e pelas felizes possibilidades de escape. Por uma integridade socialmente necessária, eu agradeço, caso seja possível me safar dessa. Como deixar explícito no texto que toda a contemporaneidade sofre do mal da certeza cambiante, mas sem dizê-lo diretamente?

[17 de maio]

Te vejo no escuro, exausto, olhos estatelados, sentindo seu corpo extenuado pela melancolia.

Pensei em formular alguma frase que envolvesse uma série de conceitos metafísicos pra evocar uma tentativa de conclusão geral sobre como a vida é, mas desisti. Não me parece a melhor opção, até porque eu mesma me sinto extenuada. A melancolia é um mal que nos assola. Mas é, também, um estranho tipo de elo.

[18 de maio]

Por isso minha mente consegue, de uma forma delirante, me imaginar perto de você. São muitos os abismos, e muitos deles transponíveis pela imaginação. Mas só por ela. A maior parte de existir consiste em vivermos para dentro, e realizar coisas dentro, e o mais fora que alcançamos são os involuntários sonhos.

Não falo por todos, é claro. Falo especialmente por mim, que projeto universos e infinitos, e vivo-os muito pouco por conta de uma configuração limitada.

[May 18th]

I would be the happiest ever in this very moment of so much frailty if I could only be sure there's something of me living in any part of you.

[18 de maio]

Assim como o professor de biologia escreve sobre JME na intenção de homenageá-la, aqui estou eu. Mas isso tudo é o grande jogo ficcional. Tudo tudo aqui é criação. E, sendo criação, não necessariamente quer dizer que é mentira. Mas quem ousaria afirmar o que é mentira e o que é verdade? É possível sabermos o que é verdade nos nossos tempos de agora?
(Me é permitido confessar o que é verdade?)
(Será que eu sei o que realmente está se passando aqui e dentro de mim? Será que eu realmente posso dar o direcionamento dito "real" desse jogo que está acontecendo agora?)

[19 de maio]

Paixão é uma coisa necessariamente obsessiva.
Nas redes sociais eu bem coloquei essa statement como uma dúvida. É a minha maneira de conversar indiretamente com você, você, que não sabe mais como me responder.
Fico pensando se o meu comportamento poderia ser classificado como obsessivo. Ou mesmo como paixão. Eu nunca sei definir esse tipo de conceito. Na verdade, eu meio que desisti de definir algumas coisas, mas só porque fui vencida pelo cansaço, porque se tem uma obsessão que eu reconheço é a necessidade de ter respostas objetivas. É mais forte do que eu. Mas eu já sei que não dá mais pra ficar acreditando nessa falácia.
Estou lendo um livro que me deu mais liberdade de não me sentir ridícula por estar fazendo isso aqui. Porque as pessoas ainda ousam vender livros que falem de "amor". E eu achando que esse tema já estava mais do que falido. Bem que eu queria acreditar sinceramente nisso.
Mas existem alguns assuntos sobre os quais minhas fantasias mais obscuras versam sozinhas consigo mesmas, e dificilmente eu as acesso de forma consciente. Um misto de vergonha e asco não me deixa escarafunchar certos cantos internos meus.
Então não dá pra ser sincera, nem de mim para comigo. Me darei a liberdade, pois, de não ser sincera com você (até quando eu não conseguir mais aguentar).
(Se alguém me lesse como literatura, que tipo de crítica seria feita a essa minha escrita?)
(É curioso que eu não consiga imaginar nossos corpos muito juntos um do outro - apenas perto, como eu disse em um dia de sentimentos mais exasperados. Um tipo estranho de repulsa me assola quando a imaginação vai montando essas imagens de forma mais intensa. Ao mesmo tempo que a vontade tem proporções exageradas, e me transporta até esse círculo do inefável e inimaginável. Isso tudo me dá um grande cansaço, I must say.)

[primeira hora de 20 de maio]

"Esteja inteiro até amanhã" foi um indicativo de esperança e um pedido abrasador de "esteja disponível para mim".
Está queimando aqui dentro, em um ponto indefinível entre a garganta e o estômago.
O coração quase salta pela boca com tudo o que a imaginação pode produzir.
Tentei evitar a imagem clichê, mas ela explica muito bem esse tormento que está acontecendo, e que geralmente me acomete de madrugada.
As madrugadas são extremamente produtivas e problemáticas.

[21 de maio]

O silêncio é muito mais vertiginoso do que o caos musical. Grupos de pessoas falando me deixam mentalmente exausta, também. Mas ficar em silêncio é, muitas vezes, uma tortura (necessária). Eu queria conseguir não escutar os meus pensamentos, só por alguns momentos, só para eu conseguir realmente descansar.
Nem dormindo. Dormir é uma questão tensa. Os sonhos são terrivelmente reais - inclusive aqueles em que eu te vejo, inclusive aqueles em que o mundo está acabando de maneira bela e apavorante, inclusive aqueles em que eu estou fugindo ou tentando me livrar de uma ameaça à minha vida (esses são muito recorrentes).
"Nenhuma acupuntura, chá de camomila, banho de alecrim ou o que quer que seja vai te salvar se você mesma não se ajudar", diz um dos pensamentos que eu queria não escutar. São reelaborações de algumas memórias, com um toque do meu cruel juiz interior. Essas vozes doem e cortam. Mesmo em silêncio, mesmo sozinha, quando eu não preciso estar me portando de forma a agradar alguém - esse trauma imenso e constante -, I need to be a lady to myself. But I'm really unsure about the real necessity of this.

Eu estou em paz, de alguma forma, porque eu não gosto dessas coisas enviesadas, obscuras, sugestivas. Sofro de uma ansiedade crônica, genética e ancestral. E tudo bem que eu esteja assim, no meu estado normal de autocomiseração e tentativa de me manter impassível. Na hora em que eu precisar desmoronar, isso vai acontecer inevitavelmente.

[]
A passagem das horas, alguns copos de qualquer bebida, um livro cortante.
Todo um novo gosto pela literatura contemporânea sendo gestado.
Gosto disso que não necessita de deslocamento e adequação histórica, me sinto entendida.

Tentativas inúteis de apagar esses flashes ambíguos.
Figurações oníricas. Reality stranger than fiction, more horrifying than nightmares.
E olha que eu tenho tido muitos pesadelos ultimamente.
De olhos abertos, inclusive.

[]
I've spent this day listening to melancholic songs and trying to swallow this whole thing up.
A mixture of rage, self-anger, laivos de um arrependimento instável, a ruthless desire, and a constant feeling of almost reaching a total breakdown - all of this housed in my chest.
I'M TIRED. I'm just so tired...

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