domingo, 13 de maio de 2018

Seu nome

É um susto passar os olhos pela minha estante
Nomes nomes nomes muitos nomes
E suas obras nomeando tantas coisas que nos pareciam inomináveis
E numa obra sobre desconstrução
(Essas coisas que descolam o significante do seu significado)
Me assusto com o seu nome:
Lembrança de saber-te tão presente nas minhas retinas
Ávidas por saber-te por perto
Ainda que apenas por escrito, apenas o seu nome
Signo descolado do seu significado
Porque a virtualidade é um processo horrendo de substituição do real

sábado, 12 de maio de 2018

01 saudade chamada: teoria do romance

A narrativa perfeita não deixa sobras nas suas emendas. O romance parece um processo tão natural e fluido quanto a própria vida. Ao longo do tempo, parece que o questionamento metaficcional só vai afastando a obra de arte da própria vida, denunciando seu caráter de artifício - o grande erro é achar que o artifício está separado da vida como ela é. No fundo, tudo o que a narrativa busca é a verossimilhança: parecer uma realidade possível. Por que existem narrativas surrealistas muito mais verossímeis do que certos filmes com pretenso objetivo realista?

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Caranguejos

Os olhos verdes de Saturno são apenas uma das pontas de uma delicada gradação. Até chegar à morena castanha dos olhos d'água, muita dor entra no espectro que existe entre Saturno, o castrado deus do tempo, e a ninfa lunar que mergulha nos mais profundos oceanos. De uma polaridade à outra, tanta dor, tanta incompreensão, corações tão esmigalhados pela angústia da vida. Esses dois pequenos deuses cotidianos habitam o mundo de forma diáfana, cada qual ao seu modo: ele, pantera solta a se esquivar em meio às trevas da floresta noturna; ela, tormenta que rasga os ares para desaguar como leve brisa de encontro à praia.
"Vejam só essa manhã tão cinza... A tempestade que chega é da cor dos seus olhos castanhos."
Observe só a imagem que ficou presa nas minhas retinas a partir desse registro poético, tão antigo, que me forneceu uma sensação antes mesmo de eu ter tempo de vivê-la: eu vi um céu castanho uma vez, há muitos anos. Lembro-me de esperar ansiosamente por uma tormenta que veio, sim, como se todo o céu estivesse desabando - a chuva vinha em todas as direções, lavava as ruas, os prédios, os rostos, os corpos, os olhos, as almas.
Dos saturninos olhos, fica a pupila-menina, tão redonda e brilhante e líquida, protegida por finas rugas de pálpebras acostumadas à insônia. Sua redoma tem a cor das folhas parcialmente ressequidas: ainda verdes, mas desbotadas da vivacidade de que dispõem quando em seu máximo esplendor. Já está no chão, um bocado esmigalhada, levada longe de sua árvore-mater por uma brisa silvestre. É a viva ruína da memória, que não nos permite esquecer a lei cíclica que rege toda a Natureza.
Essas delicadezas se protegem, comumente, em duras cascas, com poderosas pinças: seu poder de agarrar-se à vida tem toda a potência e a força das águas em que se navega, se desbrava, mas também se pode afogar em meio às tormentosas ondas. Sua fluida vida marinha resguarda-se em frios e estéreis aquários pelo medo de libertar-se - mergulhar é um perigo, por certo. Mas como resistir ao embalo de seu eterno balançar?
Neles mergulhados, nos encontramos com o núcleo da vida, princípio de aconchego, possibilidade de paz. Acautelar-se, no entanto, é mister: não se deve, jamais, prescindir do sopro da vida. Planarei, aérea, por sobre seus mistérios. Encontramo-nos breve mas significativamente, para que eu me lembre lembre lembre lembre, e os guarde no mais sagrado templo que há entre minha mente e meu coração.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Em meio ao labirinto... I

Vez em quando me surpreendo comigo mesma quando me pego pensando em você. Colocar a consciência em um pensamento que tão fugazmente vai e vem dentro da minha cabeça (e dentro do meu coração?) me dá algum arrepio, me deixa um tanto intrigada - o que é que você está fazendo aqui?
(These are not poppy-like-lines, for you to know that I'm still able to dream wide awake).
Te vejo montanha acima, desbravando o insondável mistério, seus pés se adiantando na garantia de proteção para todos - todos cabem direitinho dentro do seu grande coração.
Te vejo montanha abaixo, cansado, confuso, contando histórias que derretem e aquecem meu coração enregelado pelo frio e pela angústia de não me saber segura ao fim da caminhada.
Te vejo próximo, confessando o inconfessável, encontrando estranha interlocução nesse encontro que foi tão fácil e tão natural - seu coração é grande o suficiente para caberem tantas angústias quantas um guerreiro é capaz de carregar sem desabar.
Te vejo longe, longe, tão longe que eu quase posso me indagar se isso tudo, de fato, aconteceu. Um arrepio na espinha, o coração se contrai num esgar de pavor de quem se sabe muito próximo da loucura e muito longe de você.
Nos meus pensamentos você é forte e doce. Seus braços abrem caminhos externos e internos, afagam dores mas apontam para si, pedindo: entre dentro de mim e me ajude a me aquecer por dentro.
Iluminar conscientemente esses pensamentos já me pareceu tão estranho... Transformá-los nessas palavras concretiza qualquer coisa que eu mesma possuo de inconfessável, e que assim permanecerá: eis a minha mais intensa batalha atual. Mas você está guardado aqui dentro, enigma que ilumina e aquece, capaz de chorar e de lutar com o mesmo vigor. Reverência é o que lhe presto - em algum outro momento, dedico-lhe qualquer coisa transmutada a partir desse lampejo inicial (ou não?).

sexta-feira, 27 de abril de 2018

being a dastard?

Am I programmed for flirting?
Writing have been being such a necessity
Que eu não imaginei que tomaria essa proporção

É tempo de escrever
A parte que se estranha é aquela
Em que não se consegue estabelecer
Um canal de troca e comunicação

Should I give myself so propmtly
To this urging desire?
What is that that makes me
Behave so improperly?

Here I am, here I go
I wasn't born for being such a dastard.
Was I?