quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O céu e o mar;


Pergunta-me: como você gosta de mim?
Como assim? De que maneira?
E eu... Eu sou uma tola sonhadora.
Eu gosto de você... Talvez assim:

Gosto de você como o mar gosta do céu.
No horizonte, nossas cores se confundem,
Vivemos em plena e constante convivência,
Vivemos entrelaçados pela poesia d'outras eras.

Pela contemplação externa, às vezes somos um:
Muitos nos enxergam assim, sempre tão unidos,
Tão indistintos, tão inexoravelmente inseparáveis...
Eternos amantes, misteriosamente completos.

E eu gosto de você assim - é assim que,
Infelizmente, apenas aparentamos ser.
Deixe-me explicar, com toda a dor do mar,
A maneira como nós realmente somos.

Você é o céu. Infinita abstração azul.
Uma idéia magnífica e confusa,
Que escapa ao meu pequeno entendimento.
Você é o céu, tão distante, tão eterno...

E eu sou o mar. Volúvel, concreto,
Inquieto, inconstante, desajeitado
Em toda a minha aparente proporção.
Eu sou o mar, tão físico, tão efêmero...

Na verdade, o mar sempre vê o céu
Na admiração de quem olha para cima
E vê um deus. Enamora-se de algo
Que é simplesmente intocável, surreal.

O céu vê o mar com caridosa dolência
De quem compreende o fascínio que
A imensidade sagrada exerce
Sobre aquelas inconstantes águas.

O mar reflete em sua mineral transparência
A sublime cor que o céu emana. Com isso
Manifesta seu profundo desejo de integrar-se
Àquela idéia que tanto ama e admira.

O céu apenas vê, e se deixa sorrir
Pela ingenuidade daquela criança
Que não reconhece a real dimensão
E a real importância de si e do universo.

Veja como são distintos o céu e o mar!
Por mais que em sonhos eles sejam
Os eternos amantes imortalizados
Pela poesia das outras distantes eras,

[Por mais que o mar tenha um pouco do céu,
E o céu, um pouco do mar,]

Na verdade são assim, inegavelmente distintos;
Não só pela sua composição física,
Não só pelas características de suas matérias,
Mas por suas idéias, tão opostas, tão imiscíveis.

O céu é sagrado, é elevado, sublime e abstrato.
Jamais toca a terra, porque ele abrange
Não só a terra, o mar, ou qualquer outro seu amante.
Ele é infinito, complexo, e contém todo o Universo.

O mar... É a síntese da ingenuidade do ser concreto,
Que traz em seu âmago a perdição ou a vida
De outros seres menores que por ele se arriscam,
Mas que, profundamente, sonha com o inimaginável.

Céu e mar não se tocam, não se encontram.
Se vêem e se contemplam, mas estão fadados
À eterna e irrevogável separação; pertencem
A diferentes planos, têm diferentes manifestações.

O mar desconfia da sua condição.
Sabe que é pequeno e profano,
Mas arrisca-se no anseio de seu sonho:
Em pequenos fragmentos, projeta-se ao céu.

O céu, por pena ou caridade,
Recebe os fragmentos dos sonhos
Daquele que tanto o ama; porém,
Quando dele se cansa, ou se aborrece,


Lança a cruel chuva, para que o mar se lembre de que há intransponíveis limites entre o sonho e a realidade, entre o possível e o impossível, e que jamais há de recebê-lo em si, porque suas essências são distintas, e nada poderá fazê-los vibrar da mesma maneira.


A chuva é amena e reconfortante para o céu,
Significa alívio, leveza, solidão...

A chuva é amarga e torturante para o mar,
Significa dor, tristeza, desilusão...

5 comentários:

  1. O que eu quero falar ainda é inconcreto demais pra utilizar palavras.

    Mas... Magnífico i.i

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  2. may isso eh triste Y_______Y

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  3. É triste mas é verdadeiro.. :)

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  4. Poesia maravilhosa! Linda! Delicada!
    Sei q nao sou um grande conhecedor, mas sei quando uma coisa é bela. O Livro q quero de poesias é desse nível.
    Parabéns!

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  5. Desculpe pela indelicadeza de já invadir seus arquivos, contudo me vi tomado de uma curiosidade incessante... è interessante saber que temos interesses comuns pela escrita, não sei se percebeu mas me dedico também a esta area. Gostei de suas palavras sao de uma formosidade incrivel em um mundo de caravelhos extrovertidos!....
    P.S.: desculpe pelos meus erros, tenho interesses em reformar a nossa lingua.

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:)