sábado, 26 de outubro de 2024

de idiota a desprezível

sem meio termo

(ouvi dizerem sobre a balança:
parece que há um equilíbrio
quando há uma tonelada exata
em cada prato

mas uma única pena
em um único lado
e...)

sobre frutos

o primeiro, a paixão
a segunda, a convicção do amor
o terceiro, a desilusão

danço eu, dança você
etc

pagamos o mesmo preço, todes:
não há garantia de nada
quando escolhemos dar
o salto no escuro

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

golden red

eu, que sou da lua prateada
que se acende na noite escura,
eu, que uivo:
sozinha, de dor,
ou oportunamente, no texto literário

acendi no peito um vermelho intenso
"the feeling feelings club"
antigo
"Sargent Pepper's lonely hearts club band"
e todos os seus posteriores derivados
- incluindo minha diva favorita,
"I don't wanna feel blue anymore"

a merencória pulsação

se trança com o fio dourado de Ariadne
para que então eu consiga ver
as linhas de força do meu labirinto

(e as inserções de novos feixes
vermelhos
dourados
ou outros, talvez)

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

caos

todas as colheres com que meço
café e açúcar
mais ou menos empilhadas no fundo da pia.

num dia, é dia do poeta.
no outro, morre um poeta
e nos perfura a todos
os sensíveis
a sua carta de despedida
em que ele confessa suas grandes paixões:
a leitura
e os amigos.

a solidão amarga com que redijo essas palavras canhestras
(adjetivo roubado de uma carta de um meu amigo,
meu amigo: você ainda está aí?)

a solidão compartilhada ao redor da qual me encontro
com outros, novos feixes de vida
que se misturam aos meus
trazendo algo de vibrátil
aos meus dias tom cinza

terça-feira, 22 de outubro de 2024

eu não te amo

e odeio que os meus pensamentos
soltos, à deriva,
naturalmente flutuem
em sua direção

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

valsa brasileira

                  para Fernando Lobo, seu estimado filho e seus afilhados

encostar caminhos:
Ana queria saber em qual rua.
Edu rodou as horas para trás:
na casa vazia
havia ela.
um contrassenso,
tal como a minha busca.
também subi a montanha
como se move um puro sentimento:
desci a serra em direção ao mar
mas me detive no mesmo ponto
em que Pedro de Alcântara veio à luz
de pródigas entranhas.
A vida não vale sem risco - 
"Tá com pena de viver?",
é o que me pergunta
o fluxo de luzes coloridas
em que meus pensamentos se perdem
tentando lembrar,
tentando esquecer.

sem pena, eu fui.
sem graça, eu fiquei.
veja como o tempo voa:
o ano quase se foi
e a busca foi em vão.
tanto quis te ver
e te conhecer
tantos gestos - inúteis
tantas palavras
despejadas nas folhas
e nas telas
para fazer valer o risco
de me jogar no mundo
e encontrar somente
o negro, vasto oceano
de mim mesma.

(preciso acreditar que
no meu filme
toda essa ação valeu...) 

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

aríete

não brigo com a página em branco
porque não tenho desespero em preenchê-la.
se o poema me vem, ele veio.

do contrário,
vivo os dias como se não me desse conta
do quanto as palavras
significam

- para mim,
sobrevivência.